
As negociações para a delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro devem avançar nos próximos dias com a definição de um roteiro inicial da colaboração.
De acordo com a reportagem publicada pela Gazeta do Povo, prisões realizadas nesta quinta-feira (16 de abril), como a do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do advogado Daniel Monteiro, já teriam sido parcialmente fundamentadas por informações surgidas durante essas tratativas.
Fontes ligadas à investigação disseram à reportagem que elementos obtidos nas conversas sobre a possível colaboração já ajudaram a embasar as prisões.
A quarta etapa da Compliance Zero foi deflagrada novamente sem incluir autoridades de alto escalão dos Três Poderes entre os alvos de medidas judiciais. Uma das hipóteses consideradas por investigadores é que a formalização da delação seja aguardada antes de um eventual avanço sobre nomes de maior peso político e institucional.
A defesa de Vorcaro deve apresentar à Polícia Federal e a procuradores, ainda nesta semana ou na próxima, uma espécie de roteiro com os principais pontos da delação.
Fontes ouvidas pela Gazeta do Povo afirmam que a defesa sinalizou a possibilidade de devolver até R$ 40 bilhões, com pagamento distribuído ao longo de até dez anos. A proposta, embora considerada relevante, vem sendo recebida com cautela por investigadores e pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça.
Ao jornal, o advogado constitucionalista André Marsiglia avaliou que Vorcaro teria de indicar onde os recursos estão ou de onde pretende obtê-los. Já o criminalista Márcio Nunes observou que a situação pode se tornar mais delicada caso os valores estejam em paraísos fiscais ou em nome de terceiros, o que poderia comprometer outras pessoas no esquema.
Segundo a Gazeta do Povo, a tendência é que o processo se estenda por meses e ultrapasse inclusive o período eleitoral. A avaliação de fontes ligadas ao caso é que as autoridades não demonstram pressa e preferem priorizar a consistência das informações antes de qualquer eventual homologação.
A tentativa de acelerar a colaboração também estaria ligada, conforme a Gazeta do Povo, ao risco de dissipação do patrimônio vinculado a Vorcaro. Parte da fortuna do ex-banqueiro, segundo apurações preliminares, estaria distribuída em fundos e estruturas financeiras complexas no Brasil e no exterior.
Sem controle direto sobre esses ativos, haveria receio de que valores sejam reduzidos ou desviados por terceiros antes da formalização do acordo. Para Márcio Nunes, em declaração citada pela Gazeta do Povo, isso poderia enfraquecer a capacidade de Vorcaro de oferecer compensações financeiras, consideradas um dos principais trunfos da defesa na negociação.
Na avaliação de André Marsiglia, também reproduzida pela Gazeta do Povo, a delação aparece não apenas como estratégia jurídica, mas também como forma de preservar recursos que poderiam ser usados para viabilizar benefícios penais. Mesmo que o acordo seja concluído, ele ainda precisará passar pela análise do ministro André Mendonça, que já teria sinalizado a interlocutores não haver garantia automática de homologação.
