
Uma disputa judicial movida pelo bloco Crocodilo, liderado por Daniela Mercury, alterou e depois reverteu a programação dos desfiles no circuito Barra-Ondina, em Salvador, após decisão do Tribunal de Justiça da Bahia suspender, neste sábado (14 de fevereiro) uma liminar que colocava o grupo na primeira posição.
A liminar havia sido concedida na quinta-feira (12), pelo juiz Murillo David Brito, mudando a ordem de saída e determinando que o Crocodilo abrisse os desfiles no domingo (15) e na segunda-feira (16). A decisão obrigava o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) e a Saltur (Empresa Salvador Turismo, da Prefeitura) a alterar a ordem dos desfiles, sob pena de multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento.
Com a derrubada, decisão tomada pelo desembargador Rolmberg Costa, em decisão individual no Plantão Judiciário do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), voltou a valer a fila originalmente definida para o Carnaval no circuito Barra-Ondina.
Segundo o desembargador, inexistem provas de que o Bloco Crocodilo tenha ocupado de forma contínua a primeira posição nos últimos carnavais. Documentos anexados ao processo indicam que, entre 2015 e 2025, o bloco desfilou em colocações intermediárias, o que enfraquece a tese de precedência absoluta.
A decisão também enfatiza que o regulamento do Comcar determina que a ordem dos desfiles é definida anualmente, levando em conta critérios como deliberação em assembleia, posição no ano anterior e organização geral do evento -- e não apenas a antiguidade do bloco.
O recurso que levou à suspensão foi apresentado pelos blocos Olodum, Camaleão (que tem Bell Marques à frente) e Coruja (de Ivete Sangalo), que abrem os desfiles no domingo e na segunda-feira. Eles afirmaram que a mudança às vésperas da festa traria prejuízos logísticos e comerciais e poderia comprometer o planejamento de segurança pública.
Com a manutenção das posições originais, o Olodum abre os desfiles no domingo, seguido pelo Camaleão, liderado por Bell Marques. Na segunda-feira, o Coruja, de Ivete Sangalo, sai primeiro, e o Camaleão desfila na sequência. O Crocodilo fica como o sexto bloco no domingo e o nono na segunda.
A ordem dos desfiles é definida pelo Conselho Municipal do Carnaval, formado por entidades carnavalescas, com base em critérios que incluem a antiguidade. O Crocodilo, porém, entrou na Justiça alegando ter sido o primeiro dos grandes blocos a trocar o circuito do Campo Grande pelo Barra-Ondina em 1996.
Naquele ano, Daniela Mercury deixou o Campo Grande, então principal percurso da festa, e passou a desfilar na Barra, região que, na época, recebia blocos menores e alternativos. A mudança ocorreu em meio ao congestionamento de trios no trajeto tradicional, que fazia os desfiles chegarem a durar oito horas.
A Barra não tinha infraestrutura básica para o Carnaval naquele período, mas nos anos seguintes o circuito se consolidou como uma das principais vitrines da festa. A decisão que suspendeu a liminar destacou que os documentos apresentados pelo Crocodilo não demonstraram que o bloco ocupava a primeira posição na fila.
Nos anos 1990, blocos menores como Gula, Fecundança e Brother apareciam nos primeiros lugares. Com a expansão do Barra-Ondina, essas agremiações se associaram a blocos maiores, o que possibilitou que Camaleão e Coruja passassem a abrir os desfiles. O Olodum desfila no circuito desde 1998.
A disputa repercutiu entre artistas. Bell Marques disse considerar a situação chata e “fora de ética”. Ele afirmou que, no passado, poucos artistas queriam abrir os desfiles no circuito, mas que a visibilidade das transmissões de TV transformou os primeiros horários nos mais disputados.
O prefeito Bruno Reis (União Brasil) também comentou o caso e disse que a judicialização provoca instabilidade. “Acho que ninguém ganha com isso. Tem que ter um Carnaval com os artistas unidos, todo mundo trabalhando junto para a gente ter a melhor festa de rua do planeta”, afirmou.
De acordo com o prefeito, "há uma ordem pré-definida. Não houve nenhuma mudança de 26 para 25, nem de 25 para 24, nem de 24 para 23. A ordem está aí sem qualquer alteração há muito tempo".


