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Cores e indumentárias mostram a força dos blocos afro em Salvador

O maior atrativo do carnaval baiano continua sendo a riqueza cultural dos Blocos Afro

Foto: Arquivo pessoal
Cáren Cruz: "A escolha das cores e adereços traz uma história de protesto e resistência por trás da folia"
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Blocos Afro como Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy são protagonistas do Carnaval de Salvador desde os anos 1970, promovendo cultura e identidade negra. Suas vestimentas e cores expressam espiritualidade, ancestralidade e resistência, com raízes nas religiões afro-brasileiras. Para a consultora Cáren Cruz, essa estética também educa.

Desde a década de 1970, os Blocos Afro transformam o Carnaval de Salvador com uma estética baseada em símbolos das religiões de matriz africana. Mais do que folia, a escolha de cores, tecidos e adereços revela um movimento político, cultural e identitário de valorização da negritude.

Trios como Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, Olodum e Malê Debalê narram gerações de história por meio de ritmos, vestimentas e simbologias que refletem a resistência e o orgulho da identidade negra, em uma manifestação cultural que começou a se consolidar nos anos 1970.

Segundo a comunicóloga e consultora de imagem Cáren Cruz, os Blocos Afro surgiram como expressões políticas e culturais pautadas na valorização da identidade negra.

A partir da criação do Ilê Aiyê em 1974, essas agremiações passaram a disputar espaço no Carnaval por meio de uma estética própria, inspirada nas culturas afrodiaspóricas e em oposição à exclusão histórica de corpos e narrativas negras na festa.

Nos circuitos Dodô, Osmar, Pelô e, mais recentemente, das Águas (Itapuã), a estética dos Blocos Afro se destaca por fantasias e abadás que fazem referência direta às religiões de matriz africana. A Banda Didá, por exemplo, já homenageou Oxum com tons dourado e amarelo; os Filhos de Gandhy levam às avenidas o branco de Oxalá e o azul de Ogum. De acordo com Cáren, essas escolhas traduzem protestos e afirmações identitárias.

Ela explica que o afoxé, representado pelo Filhos de Gandhy, já carrega em seu significado a presença do Candomblé nas ruas. Os trajes do bloco, compostos por búzios, braceletes e vidrilhos, têm ligação direta com os orixás e os rituais dos Calundus, ressaltando a conexão espiritual como parte fundamental da expressão cultural.

Para Cáren, que dirige a Pittaco Consultoria e atua com identidade imagética de profissionais negros, o Carnaval também tem caráter pedagógico. “Quando os Blocos Afro ocupam as ruas com cores, tecidos e símbolos, eles estão comunicando valores, histórias e pertencimento”, afirma. Ela destaca que as cores funcionam como códigos sociais, que expressam espiritualidade, ancestralidade e resistência, com tecidos que remetem a reinos e tradições africanas.

Desde o surgimento do Ilê Aiyê, no bairro do Curuzú, com apenas cem integrantes, até os atuais trios que conduzem multidões, os Blocos Afro se firmaram como potentes instrumentos de reafirmação cultural e política. Hoje, milhares de foliões negros encontram nesses espaços a oportunidade de celebrar a própria identidade e ancestralidade.

Embora a festa também seja marcada por grandes atrações musicais, Cáren aponta que o maior atrativo continua sendo a riqueza cultural dos Blocos Afro. Segundo ela, as escolhas estéticas nesses blocos não seguem tendências, mas sim códigos simbólicos originados nas religiões afro-brasileiras. Cada cor, textura e adereço comunica mensagens de pertencimento coletivo, proteção, força e espiritualidade.

“Quando falamos em indumentária nos Blocos Afro, falamos de uma construção visual que nasce da vivência negra”, explica Cáren. Ela ressalta que a estética dessas agremiações não é mero adorno, mas uma estrutura que posiciona o corpo negro como protagonista de uma narrativa histórica e cultural que vai além do Carnaval.