Entre uma palavra e outra: Opiniões que ninguém pediu, de André Curvello, distribuído gratuitamente pelo autor, é uma obra que se afirma pela sobriedade do tom, pela densidade ética e pela confiança na palavra como instrumento de mediação social.
Trata-se de uma coletânea de artigos que atravessam décadas de atuação jornalística e de reflexão pública, reunindo memória, análise e sensibilidade em torno de temas centrais da vida brasileira: comunicação, política, justiça social, violência, democracia e relações humanas
O livro não se organiza como manifesto nem como tratado teórico. Sua força reside justamente no equilíbrio entre a experiência concreta do autor e uma escrita que se recusa ao estridismo.
André Curvello escreve a partir do lugar de quem viveu redações, assessorias, crises institucionais e dilemas éticos, mas escolhe a serenidade como método.
A palavra, aqui, não é arma retórica, e sim ponte. Cada texto revela um compromisso constante com o diálogo, a escuta e a responsabilidade pública da comunicação.
Há, ao longo da obra, uma dimensão autobiográfica discreta, porém decisiva. Textos dedicados à família, à amizade e à memória do pai não funcionam como interrupções intimistas, mas como fundamentos morais do pensamento do autor.
O jornalismo, em André Curvello, não se separa da vida. Ética profissional, afeto, lealdade e empatia aparecem como valores indissociáveis do ato de informar e de opinar. Essa integração confere autenticidade ao livro e afasta qualquer tentação de cinismo ou distanciamento excessivo.
No plano temático, a coletânea é ampla e coerente. Questões como credibilidade da imprensa, fake news, racismo estrutural, segurança pública, direitos humanos e sustentabilidade são tratadas com clareza e sem simplificações.
O autor evita tanto o tecnicismo hermético quanto a superficialidade opinativa. Seu texto busca contextualizar, problematizar e convidar à reflexão, sempre com respeito ao leitor e aos fatos. Mesmo quando assume posições firmes, o faz sem agressividade, sustentando-se em argumentos e na observação da realidade.
Estilisticamente, Entre uma palavra e outra aposta na limpidez. A escrita é direta, elegante e funcional, marcada por frases bem construídas e por um ritmo que favorece a leitura contínua. Em alguns momentos, especialmente nos textos mais memorialísticos, surge uma dimensão quase lírica, contida e eficaz, que amplia o alcance emocional da obra sem comprometer sua sobriedade.
O resultado é um livro acessível, mas longe de ser simples, capaz de dialogar tanto com profissionais da comunicação quanto com leitores interessados na vida pública brasileira.
Em síntese, o livro de André Curvello é um testemunho de confiança na palavra responsável e no jornalismo entendido como serviço público. Mais do que reunir artigos, a obra constrói uma visão de mundo pautada pelo respeito, pela escuta e pela crença de que comunicar é, antes de tudo, um ato de cuidado com as pessoas e com a democracia.
Trata-se de uma leitura relevante, atual e necessária, especialmente em tempos marcados pela pressa, pela desinformação e pelo empobrecimento do debate público.

