Política

Flávio Bolsonaro e Lula tentam conquistar 41 milhões de jovens

Redes sociais criticadas agora são usadas como armas na caça aos votos

A caça ao voto jovem

As redes sociais ganharam ainda mais espaço nas estratégias das campanhas presidenciais para o segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro.

Com cerca de 41 milhões de eleitores entre 21 e 34 anos, candidatos e aliados apostam na capacidade de mobilização de políticos que conquistaram projeção na internet para ampliar o alcance de suas mensagens e estimular a participação nas urnas.

A importância desse público contrasta com a redução de sua participação no eleitorado brasileiro. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os eleitores de 21 a 34 anos representavam 28,01% do total em 2022. Neste ano, essa proporção caiu para 25,85%. Em números absolutos, o contingente passou de 43,8 milhões para 41 milhões, uma diminuição de aproximadamente 2,8 milhões de pessoas.

A queda não significa necessariamente desinteresse dos jovens pela política. O movimento também precisa ser analisado à luz das mudanças demográficas e do envelhecimento da população. Ainda assim, os números evidenciam uma transformação na composição do eleitorado que precisa ser considerada pelas campanhas.

Deputados com milhões de seguidores

O resultado das eleições legislativas de 4 de outubro colocou em evidência uma geração de políticos que utiliza intensamente as plataformas digitais para conquistar visibilidade e mobilizar apoiadores.

Entre os destaques está Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, eleito deputado federal com 3.038.438 votos. Outro exemplo é Nikolas Ferreira (PL-MG), de 30 anos, que recebeu 3.119.318 votos. Ambos estão entre os candidatos mais votados para a Câmara dos Deputados em 2026.

A esquerda também elegeu representantes jovens com forte presença digital. Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, conquistou mais de 524 mil votos e passou a integrar as articulações de comunicação digital da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Os resultados reforçam a importância da presença nas plataformas digitais para a construção de trajetórias políticas. Entretanto, a quantidade de seguidores não corresponde necessariamente ao número de eleitores conquistados por influência das redes.

Uma audiência digital pode reunir pessoas de diferentes estados, idades e posições políticas. Além disso, o desempenho nas urnas depende de fatores como identificação partidária, reconhecimento público, propostas, alianças e capacidade de mobilização fora da internet.

A disputa presidencial nas plataformas

A pequena diferença entre os candidatos no primeiro turno aumentou a atenção das campanhas para diferentes segmentos do eleitorado.

Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%, segundo os dados da apuração divulgados pelo TSE. A diferença foi de aproximadamente 2,23 milhões de votos.

Nesse cenário, deputados e influenciadores com grande alcance digital passaram a ocupar espaço nas estratégias de comunicação dos dois campos políticos.

Na campanha de Lula, parlamentares com forte presença nas redes participaram de articulações voltadas à comunicação do segundo turno. Entre eles está Ana Elisa, que integra uma geração de representantes políticos familiarizada com a linguagem e a dinâmica das plataformas.

No campo de Flávio Bolsonaro, Lucas Pavanato também manifestou disposição de participar da mobilização eleitoral.

A atuação desses políticos permite às campanhas ampliar a circulação de mensagens em ambientes nos quais parte dos eleitores acompanha notícias, debate propostas e forma opiniões sobre os candidatos.

Vídeos curtos, transmissões ao vivo, publicações compartilháveis e conteúdos produzidos por influenciadores integram esse esforço. A comunicação deixa de depender exclusivamente dos programas eleitorais de rádio e televisão e passa a circular por diferentes redes de relacionamento.

O desafio de transformar audiência em votos

Apesar da importância crescente das plataformas digitais, a relação entre popularidade na internet e desempenho eleitoral exige cautela.

Ter milhões de seguidores pode ampliar a visibilidade de um candidato, mas não garante que sua audiência compartilhe suas posições políticas nem que compareça às urnas.

Também é necessário distinguir a mobilização de eleitores que já possuem preferência definida da capacidade de conquistar votos de pessoas indecisas. São processos diferentes, que exigem estratégias e formas específicas de avaliação.

Outro aspecto relevante é que o uso das redes sociais não se restringe aos mais jovens. Eleitores de diferentes gerações utilizam plataformas digitais para consumir notícias, acompanhar debates e interagir com conteúdos políticos.

A influência da comunicação digital sobre as escolhas eleitorais, portanto, não pode ser medida apenas pelo número de visualizações, curtidas ou compartilhamentos.

Para compreender seu impacto, é necessário considerar pesquisas de comportamento eleitoral, padrões de consumo de informação, níveis de engajamento político e dados de comparecimento às urnas.

O que dizem os estudos acadêmicos 

Pesquisas acadêmicas indicam que a participação política dos jovens está associada ao uso das redes sociais, embora essa relação não signifique necessariamente uma mudança na intenção de voto.

O estudo Engajamento online e comparecimento eleitoral de jovens: o caso das eleições de 2022, publicado em 2025 na revista científica Caderno CRH, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), analisou dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB).

A pesquisa aponta que o engajamento político na internet pode reduzir barreiras à participação e favorecer atividades políticas fora do ambiente digital.

A conclusão reforça a importância das plataformas para a mobilização juvenil, mas não permite afirmar que o número de seguidores de um candidato se converta diretamente em votos.

A influência das redes também depende das estratégias de comunicação utilizadas pelos candidatos. Uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica EPJ Data Science examinou 11.263 publicações no Instagram de 19 candidatos à Presidência da República nas eleições brasileiras de 2018 e 2022.

Os pesquisadores identificaram o uso frequente de imagens positivas, personalização da comunicação e conteúdos destinados a estabelecer conexões emocionais com o público.

Outro estudo, publicado na revista Political Communication, analisou aproximadamente 80 mil publicações e anúncios no Facebook durante as eleições brasileiras de 2022 e concluiu que candidatos com mais recursos e investimentos em divulgação obtiveram maior engajamento digital.

Os resultados mostram que a visibilidade nas plataformas também está relacionada às desigualdades de recursos entre as campanhas.

Uma revisão acadêmica publicada em 2026 no International Journal of Educational Research reuniu 21 estudos empíricos sobre o uso das redes sociais e a participação política juvenil.

Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva moderada entre as duas variáveis, mas identificaram diferenças relevantes conforme os métodos de pesquisa e as características das amostras.

O resultado sugere que as plataformas podem favorecer o envolvimento político dos jovens, sem comprovar que provoquem mudanças nas preferências eleitorais.

Para o segundo turno presidencial brasileiro de 2026, essa distinção é fundamental: as redes podem contribuir para informar, mobilizar e estimular o comparecimento às urnas, mas ainda não há evidência suficiente, nesses estudos, para medir sua capacidade de transferir votos entre candidatos. 

Participação pode fazer diferença

A redução do peso relativo dos jovens no eleitorado não diminui a relevância desse segmento. Os 41 milhões de brasileiros de 21 a 34 anos representam aproximadamente um quarto das pessoas aptas a votar.

No segundo turno, as campanhas enfrentam três desafios simultâneos: preservar o apoio conquistado na primeira votação, buscar eleitores que apoiaram outros candidatos ou ainda estão indecisos e estimular a participação daqueles que se abstiveram.

As redes sociais podem contribuir para esses objetivos ao facilitar a circulação de informações e a mobilização de apoiadores. Mas seu efeito sobre o resultado dependerá da capacidade de transformar engajamento digital em participação eleitoral.

A eleição de parlamentares jovens com votações expressivas mostra que a comunicação política brasileira passa por transformações importantes. O desafio das campanhas presidenciais será compreender até que ponto a influência construída nas plataformas pode ultrapassar as telas e se refletir nas urnas em 25 de outubro.