
O rover Curiosity, da Nasa, identificou na cratera Gale, em Marte, mais de 20 moléculas orgânicas complexas preservadas em rochas com cerca de 3,5 bilhões de anos. O resultado, publicado na revista Nature Communications, reforça a hipótese de que o planeta já teve condições favoráveis à química da vida, embora não comprove a existência de organismos no passado.
A descoberta foi feita em Glen Torridon, uma área rica em argilas dentro da cratera Gale, bacia de 153 quilômetros de diâmetro que, há cerca de 3,5 bilhões de anos, pode ter abrigado um lago. Naquele período, Marte tinha água em abundância, mas o planeta perdeu o campo magnético, teve a atmosfera erodida pelo vento solar e viu grande parte da água escapar para o espaço.
O experimento foi realizado em 2020 com o instrumento SAM, sigla para Análise de Amostras em Marte, instalado no Curiosity, que pousou no planeta em 2012. Para liberar compostos orgânicos presos nas rochas, os cientistas usaram hidróxido de tetrametilamônio, o TMAH, uma substância altamente corrosiva e alcalina capaz de quebrar estruturas macromoleculares complexas em fragmentos menores detectáveis pelo equipamento.
Segundo a equipe, o rover levava uma quantidade muito limitada do reagente, com cerca de 500 microlitros distribuídos em dois recipientes, o que exigiu uma escolha criteriosa do local de análise. As amostras vieram de arenitos argilosos perfurados em uma região considerada especialmente promissora para a preservação de matéria orgânica.
A análise revelou 20 moléculas orgânicas, entre elas compostos aromáticos, estruturas cíclicas e substâncias com enxofre, oxigênio e nitrogênio, elementos associados a processos biológicos na Terra. Entre os compostos identificados estão naftaleno, benzotiofeno e metil benzoato, além de heterociclos contendo nitrogênio, estruturas consideradas importantes para a formação de moléculas biológicas como DNA e RNA.
Um dos achados que mais chamaram a atenção foi a identificação de um composto nitrogenado com estrutura semelhante à de substâncias precursoras do DNA, algo ainda não observado em Marte. Outro destaque foi o benzotiofeno, molécula também encontrada em meteoritos e no meio interestelar, o que sugere que parte do material orgânico pode ter chegado ao planeta por impactos de rochas espaciais.
Os pesquisadores afirmam que os resultados não permitem concluir se essas moléculas tiveram origem biológica, geológica ou externa. A matéria orgânica pode ter sido formada por processos químicos naturais em Marte, transportada por meteoritos ou resultar de uma combinação entre química local e material vindo do espaço.
Essa possibilidade se encaixa em uma linha de pesquisa segundo a qual a origem da vida na Terra pode ter dependido tanto de compostos produzidos no próprio planeta quanto de materiais trazidos por meteoritos. O texto cita, como exemplo, um estudo de 2025 que relatou a presença de 14 aminoácidos em amostras do asteroide Bennu e a detecção, no meteorito Murchison, de uma molécula orgânica prebiótica chamada hexametilenotetramina.
Apesar do avanço, especialistas ressaltam que moléculas orgânicas, por si sós, não são prova de vida. O astrobiólogo César Salván, da Universidade de Alcalá, que não participou do estudo, avalia que o principal mérito do trabalho está em demonstrar que antigas rochas marcianas podem preservar material orgânico e que o método empregado é relevante para missões futuras.
A preservação desses compostos por bilhões de anos também é considerada um resultado importante. Hoje, Marte tem atmosfera rarefeita, intensa exposição à radiação cósmica e grandes variações de temperatura. Nesse cenário, as argilas da cratera Gale teriam funcionado como uma barreira natural, protegendo as moléculas da degradação ao longo do tempo geológico.
Para os cientistas, a descoberta amplia as chances de encontrar materiais ainda mais informativos na superfície e na subsuperfície marcianas. A confirmação de qualquer origem biológica, porém, dependerá de análises mais detalhadas, possivelmente com amostras trazidas à Terra, onde laboratórios têm capacidade muito superior à de instrumentos embarcados em um rover.
A pesquisa também orienta o planejamento de novas missões. Sistemas semelhantes ao SAM estão previstos para o rover Rosalind Franklin, da Agência Espacial Europeia, com lançamento planejado para 2028, e para a missão Dragonfly, da Nasa, destinada a Titã, lua de Saturno, com lançamento previsto para 2027. Enquanto isso, o Curiosity segue operando na cratera Gale, e o Perseverance continua coletando amostras em Marte para futuras investigações.
