Alberto Oliveira

Modelo de crescimento econômico deixa de fazer sentido no Brasil

A economia encontra dificuldades crescentes para transformar expansão do crédito em crescimento sustentável


Ilustração feita por IA

O Brasil enfrenta um paradoxo econômico: a renda dos trabalhadores cresce, o mercado de trabalho continua gerando empregos e o governo mantém estímulos ao consumo; apesar disso, a atividade econômica perde velocidade e as famílias encontram dificuldades crescentes para pagar suas contas.

Os números da Carta de Conjuntura de setembro de 2026, publicada pela FecomercioSP, sugerem que o país se aproxima dos limites de uma estratégia de crescimento sustentada pela expansão do consumo financiado por dívidas.

A renda média dos brasileiros cresceu 4%, enquanto a massa real de rendimentos avançou 4,9%. Entretanto, o consumo das famílias, responsável por aproximadamente 63% do PIB, aumentou apenas 0,5% na comparação anual e recuou 0,4% no segundo trimestre.

A explicação está, em parte, no comprometimento crescente dos orçamentos domésticos. Uma parcela expressiva da renda presente está sendo utilizada para pagar o consumo realizado no passado.

Segundo o levantamento, 28,9% da renda dos brasileiros está comprometida com o pagamento de dívidas. O estoque de endividamento equivale a aproximadamente 49% da renda, enquanto o número de pessoas endividadas chega a 83,5 milhões, conforme a Serasa.

Com a Selic em 13,75% ao ano, o crédito permanece caro. Forma-se um mecanismo perverso: as famílias recorrem ao financiamento para ampliar o consumo, assumem prestações que reduzem sua renda disponível e encontram dificuldades para sustentar novas compras.

O crédito, que deveria impulsionar a atividade econômica, transforma-se progressivamente em um fator de restrição da demanda.

O problema se agrava porque o enfraquecimento do consumo não está sendo compensado pela expansão do investimento produtivo.

A taxa de investimento brasileira caiu para 16,1% do PIB, o menor patamar desde a pandemia. Paralelamente, a produção de bens de capital recuou 5%, sinalizando dificuldades na modernização e ampliação da capacidade produtiva.

Diante da desaceleração, ampliar o crédito e estimular o consumo pode parecer a solução mais imediata. Entretanto, quando parcela expressiva da população já comprometeu sua renda futura, novos financiamentos podem apenas adiar o problema.

Isso não significa que o crédito seja prejudicial. Ele é indispensável ao funcionamento da economia. A questão está em sua finalidade e na capacidade de pagamento dos tomadores.

Financiamentos destinados à modernização industrial, à infraestrutura e à inovação podem ampliar a produtividade e gerar renda. Já o endividamento recorrente para sustentar despesas de consumo tende a produzir benefícios temporários e riscos financeiros crescentes.

O Brasil precisa deixar de confundir expansão do crédito com expansão da riqueza. A primeira antecipa gastos; a segunda depende de investimentos, produtividade e geração sustentável de renda.

♦

O risco de uma estagnação prolongada - A combinação de consumo enfraquecido, investimento insuficiente e endividamento elevado aumenta o risco de um período prolongado de baixo crescimento.

A saída exige mais do que renegociar dívidas ou oferecer novas linhas de financiamento.

É necessário recuperar a capacidade financeira das famílias, reduzir sustentavelmente o custo do crédito, estimular investimentos e criar condições para elevar a produtividade e a renda do trabalho.

♦

Como escapar do abismo - O desafio econômico brasileiro não é fazer as famílias consumirem mais com dinheiro emprestado.

É construir uma economia na qual elas possam consumir mais porque produzem, trabalham e ganham mais.

Sem essa mudança, o país corre o risco de continuar recorrendo ao crédito para sustentar um crescimento que o próprio endividamento ajuda a enfraquecer.

♦

Café com burrito - A Starbucks avalia comprar a Chipotle, rede americana de comida mexicana, um negócio de US$ 39 bilhões, a maior compra de uma rede de restaurantes da história.

O recorde atual diz respeito à aquisição da Tim Hortons pelo Burger King, por US4 11,4 bilhões, em 2014.

♦

Voando longe - A Organização Mundial da Saúde registrou 14,6 milhões de casos de dengue em 2024 (eram 505 mil casos, 20 anos atrás).

O mosquito que transmite a doença, tão conhecido dos brasileiros, está em 31 países da Europa e nos Estados Unidos.